Então é isso que nos resta?
Uma saudade amarga
Palavras abafadas por um orgulho torpe?
Então é esse o caminho?
Inimizade, hostilidade
Um rancor infundado e desmedido?
Onde guardar o amor,
Aquele amor que fora bom e sincero?
E aquela amizade inabalável (?)
Que davam sentido aos nossos sorrisos
Morreu também?
Então é isso:
Um ressentimento infantil é assassino
E lembrar não vale a pena
Então é isso:
Boa sorte, pra nós dois.
Que o arrependimento nunca nos ache!
Eu me repito
Mudo o cabelo
Troco a roupa
Mas me repito
Tiro os sapatos
Ando descalço
E me repito
Canto outras músicas
Outros poemas...
Eu me repito
Mudo de idéia
Falo o oposto
E ainda me repito
Tudo que faço de novo
É o mesmo velho
Que antes eu fazia
Mudo o caminho
Mudo o discurso...
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito...
É tarde pra remorso, arrependimentos
Mas sempre terás meu abraço
Nem um laço, nada afetuoso
Só meu abraço
Acho que nem te amo mais
Mas te esquecer
Não quero jamais
Não quero mais teu olhar
Vago a me procurar
Carente no escuro
Não quero ser teu príncipe
Nem quero mais ser teu
Cansei de ser teu anjo
Refúgio e escudo
Gosto doce
Amargo se fez
Dia e noite
De uma só vez
É o que vi
Quando te vi
Partir
Frio intenso
Meu corpo gelado
Eu senti
Sem você ao meu lado
É o que senti
Quando não te senti
Partir
Alegria enorme
Sorriso largado
Eu abri
De bom grado
Porque vi
O que vi:
Não preciso de ti
Deixa calar os versos
Já não importam mais
Deixe que eles se tornem
Silêncio, vazio e paz
Se a música acabar
E cessar a melodia
Deixa tocar o silêncio
Com toda sua apatia
E quando a luz apagar
E virar tudo breu
Deixa-me te abraçar
E mentir o que aconteceu
Quando o sol voltar
Estarei bem distante
Ainda amigo
Não mais amante
Gavetas de meias, bolinhas de gude, carros do ano
Esse não é mais um poema
São só versos sobrepostos
Falando de coisas normais
Sobre bola correndo
Carros passando
Pessoas cansadas, sentadas
Conversando, rindo, chorando
Esses são versos sobre nada
Sobre nada demais
Coisas triviais
Sorrisos, brigas, mesas de bar
Noites e noites em claro
Ou dias que insistem em não chegar
Bonecas, palhaços, mágicos, circo
Preces, orações, soluços...
... São só versos amontoados
E só isso
Esse poema é sobre nada
Isso nem é um poema.
Músicas espalhadas na cabeça
Que não pára de cantar
Canções que nada dizem
Com suas letras e ritmos distantes...
Pausas!
Pára a música, a letra
O pensamento
De repente tudo volta diferente
Mudaram a estação
Não! Mudaram a música (somente a música)
E então, novamente
Outra mente (outros pensamentos)
A mesma mente
Novas pausas
E o que era mesmo
Que se passava entre a gente?
Não tem “a gente”
Era só a música (somente a música)
Que continua a rodar
Como as imagens que rodam na cabeça
Que vem e vão
Como acordes de baladas repetitivas
Como lembranças de letras parecidas
Fim da música!
E, de repente
Um vazio passa na cabeça
Como passam pensamentos
Tem-se a sensação
De que não se está ali
E todos os pensamentos somem
Como se nem tivessem existidos
Esquecidos ou perdidos
Com o fim da canção
Se vão com o acorde final
Próxima música
Como se fosse mágica
A mente se enche novamente
Cores, formas, cenas...
A canção é apenas percebida
Pouco importa qual é,
Desde que traga novos devaneios
E assim segue-se o ciclo:
Músicas que se misturam
Pensamentos que se perdem
Mente que se enche ou esvazia
Conforme o som que a dispersa.
No avesso do lado de cá
Onde teus olhos inquietantes
Não conseguem me alcançar
Escondo meus olhos confusos
Tampo meus ouvidos
Pra não te escutar
No avesso do lado de cá
Teus olhos negros
Sempre tentam me tocar
Procuram em todos os cantos
Meus olhos de espanto
Que se espalham pelo ar
Do lado oposto
Onde meu corpo
Reflete teu prazer
Eu me afasto sem deixar rastros
Pra você me esquecer
No avesso do lado de dentro
Rasgo da pele o teu nome gravado
Tiro do meu corpo teu cheiro
Da minha boca o teu gosto amargo
No avesso de tudo que penso
Já não vejo razão
Pra te olhar
E nem a nudez do teu corpo
É capaz de me provocar
Do lado oposto
Onde meu corpo
Reflete teu prazer
Eu me afasto sem deixar rastros
Pra você me esquecer
Do lado oposto
Onde teu corpo
Já não me traz prazer
Eu me retiro antes da hora
Sem te satisfazer.
A chuva apagou os versos que fiz pra ti
Os papéis rasgaram
A tinta borrou
E os sentimentos...
Escorreram com a água
Estão nos bueiros
As canções que te escrevi
As melodias que compus
Nunca mais tocaram
E os sentimentos...
Passaram junto com o último acorde
Se foram com o fim do refrão
Os quadros que te pintei
Viraram trapos
Panos velhos
E os sentimentos...
Perderam a cor
Como teus olhos também
A chuva passou
Molhou as canções
Desbotou teus olhos
E os sentimentos...
Talvez nunca tenham existido.
Escolhi a folha mais bonita
Com as linhas mais perfeitas
Mas faltaram teus versos
E tive apenas um papel bonito
Decorei as bordas
Pus muitos enfeites
Mas faltaram teus versos
E tive apenas um papel bonito
Com as bordas enfeitadas
Coloquei meu verso mais profundo
Talvez o mais bonito que já fiz
Mas faltaram teus versos
E os meus não tiveram sentido
Derramei minha vida
Entreguei minhas idéias
Minha alma, meu mundo
Mas faltaram teus versos
E então era só
E mais uma vez
Só a minha vida.
Para Darlan Augusto Costa
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