Somos bons boêmios
Vagabundos natos
Errantes sem rumo
Errados de fato
Filhos da noite
Bares e ruas
Entre fumaça e éter
Peles e almas nuas
Cidadãos sem lar
Somos ralé e escória
Náufragos sem mar
Transeuntes na esbórnia
Somos o som da noite
Quando a noite acaba
Ébrios tortos
Na poeira da estrada
Ressaca do meio-dia
Somos a luz que o dia não traz
Gritos loucos e roucos
Que nunca deixam a cidade em paz
Poema de Estrada Número Um
I
Mistérios do sono
Segredos que a noite não conta
Horas parecem segundos
O cansaço não passa;
Está na alma
No espírito
Na essência do ser
II
A escuridão e o silêncio são densos
Cegam
Ensurdecem
Os olhos se fecham
E encontram sonhos
O corpo semi-desfalecido repousa
Mas o cansaço é residente
Inefêmero, eterno
Está empregnado
Em poros dilatados
Pelo suor dos passos incertos;
É o acúmulo de muitas histórias
De muitas estradas
III
A noite se estende
Trazendo imagens intranqüilas
Imprecisas, irreais
Dá tempo à mente, esvazia-a
Antes do sol chegar
Mas a dor nos músculos do ser
É latente, pungente, tenaz
Longa demais pra uma noite
Grande demais pra uma cama
IV
O breu se dissipa, se disperça
Aos primeiros raios da manhã
Que logo tocarão o corpo inerte
Renovado, limpo da poeira
Pronto pra levantar
Levando o cansaço do mundo,
Da poeira e da fumaça
Em suas costas,
Na mente ainda cansada
Lotada de histórias
Coisas que não viveu
V
Levanta-se e vai
Ao vento
Ao sabor do acaso
Ao encontro de novas histórias
Novas vidas e caminhos
Mais poeira e mais fumaça
O mesmo cansaço na alma;
Cada vez maior
Cada vez mais necessário.
Tanto dancei
Que nem reparei;
A música parou há horas
E só me avisa agora?
Dancei pra suar
Pra me esgotar
Mas me excedi
E não percebi
A luz se apagando
A hora indo embora
Noite a dentro ou a fora
O sono chegando
Por bem ou por mal;
Ladrão de Carnaval.
A luz opaca, fina
Que invadia minha vidraça
Naquela manhã nublada
Era como um sorriso teu
Que ilumina o dia
Mas não dispersa a neblina
Trazia o teu calor
Que queima
Mas não esquenta
A luz bruxuleante da manhã
Que atravessava a fresta
Da minha janela cerrada
Era como o toque teu
Que perturba, incomoda
Mas não desperta
Ou como tua voz
Que alarma
Mas não deixa alerta
Era luz fraca
Como teu querer por mim;
Era morna
Como é também o teu desejo;
Era incerta
Feito tua inconstância;
Era cínica e triste como teu sorriso.
Então é isso que nos resta?
Uma saudade amarga
Palavras abafadas por um orgulho torpe?
Então é esse o caminho?
Inimizade, hostilidade
Um rancor infundado e desmedido?
Onde guardar o amor,
Aquele amor que fora bom e sincero?
E aquela amizade inabalável (?)
Que davam sentido aos nossos sorrisos
Morreu também?
Então é isso:
Um ressentimento infantil é assassino
E lembrar não vale a pena
Então é isso:
Boa sorte, pra nós dois.
Que o arrependimento nunca nos ache!
Eu me repito
Mudo o cabelo
Troco a roupa
Mas me repito
Tiro os sapatos
Ando descalço
E me repito
Canto outras músicas
Outros poemas...
Eu me repito
Mudo de idéia
Falo o oposto
E ainda me repito
Tudo que faço de novo
É o mesmo velho
Que antes eu fazia
Mudo o caminho
Mudo o discurso...
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repito...
É tarde pra remorso, arrependimentos
Mas sempre terás meu abraço
Nem um laço, nada afetuoso
Só meu abraço
Acho que nem te amo mais
Mas te esquecer
Não quero jamais
Não quero mais teu olhar
Vago a me procurar
Carente no escuro
Não quero ser teu príncipe
Nem quero mais ser teu
Cansei de ser teu anjo
Refúgio e escudo
Gosto doce
Amargo se fez
Dia e noite
De uma só vez
É o que vi
Quando te vi
Partir
Frio intenso
Meu corpo gelado
Eu senti
Sem você ao meu lado
É o que senti
Quando não te senti
Partir
Alegria enorme
Sorriso largado
Eu abri
De bom grado
Porque vi
O que vi:
Não preciso de ti
Deixa calar os versos
Já não importam mais
Deixe que eles se tornem
Silêncio, vazio e paz
Se a música acabar
E cessar a melodia
Deixa tocar o silêncio
Com toda sua apatia
E quando a luz apagar
E virar tudo breu
Deixa-me te abraçar
E mentir o que aconteceu
Quando o sol voltar
Estarei bem distante
Ainda amigo
Não mais amante
Gavetas de meias, bolinhas de gude, carros do ano
Esse não é mais um poema
São só versos sobrepostos
Falando de coisas normais
Sobre bola correndo
Carros passando
Pessoas cansadas, sentadas
Conversando, rindo, chorando
Esses são versos sobre nada
Sobre nada demais
Coisas triviais
Sorrisos, brigas, mesas de bar
Noites e noites em claro
Ou dias que insistem em não chegar
Bonecas, palhaços, mágicos, circo
Preces, orações, soluços...
... São só versos amontoados
E só isso
Esse poema é sobre nada
Isso nem é um poema.
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